O Instituto de História da Arte e o Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa reuniram alguns dos seus investigadores em torno de um tema muito actual: a arte da caricatura. Partindo do desenho da classe política pós-25 de Abril que o caricaturista António Antunes (n. 1953) adaptou à figuração dos conhecidos Painéis de S. Vicente de Nuno Gonçalves (cª 1470), a equipa pretende analisar não só a forma como o autor revisitou e reinterpretou um dos símbolos maiores da cultura portuguesa, como também a caracterização do ponto de vista plástico e iconográfico do processo criativo e imagético do autor, possuidor de excepcionais qualidades retratísticas.
Comparação entre a pintura original dos Painéis de S. Vicente, de Nuno Gonçalves, e a caricatura da classe política pós-25 de Abril, de António Antunes.
A equipa desejou associar o projecto às Comemorações dos Cinquenta anos do 25 de Abril apostando na diversidade complementar das áreas científicas representadas nos curricula vitae dos investigadores. Com efeito, na selecção dos perfis privilegiou-se a investigação que abrangesse uma cronologia longa, desde o século XV ao século XXI, como também a riqueza das diferentes áreas de trabalho, capazes de contribuir para uma visão alargada da proposta a candidatar. Neste sentido, saliente-se a presença de especialistas com experiência carreada nas áreas do Retrato, da Fotografia, da Museologia, do Coleccionismo, da Teoria da Arte, da Historiografia e da Crítica, da História Política Contemporânea e dos Estudos de Caricatura e Cartoons.
O fruto da investigação foi convertido neste site, lançado em Junho de 2024, quando se inaugurou também uma exposição sobre a obra deste cartoonista, no âmbito do certame Cartoonxira 2024, promovido pela World Press Cartoon e a CM de Vila Franca de Xira.
Associar o tema às Comemorações dos Cinquenta anos do 25 de Abril apostando na diversidade complementar das áreas científicas representadas nos curricula vitae dos nove investigadores de duas UIs.
Ajudar a preservar de um modo pedagógico, humorístico e simultaneamente científico na memória colectiva das gerações nascidas no pós-1974 os rostos de Abril que são os de algumas das personagens mais marcantes da História de Portugal recente.
Promover uma parceria com a Associação de Professores de História, na qual está prevista a organização de uma acção de formação creditada sobre o tema, bem como a produção de conteúdos a publicar em obra coordenada pela APH.
Realizar um colóquio de divulgação do projecto com vários participantes no Museu Nacional de Arte Antiga, lugar onde se encontram guardados os Painéis de S. Vicente de Nuno Gonçalves.
Quando Nuno Gonçalves pintou os Painéis de S. Vicente estava longe de pensar que criaria não só um dos exemplos mais originais de arte do retrato no Renascimento na Europa do tempo (P. FLOR, 2010a), mas também uma obra que se tornaria um símbolo nacional nacional capaz de ser interpelado e reinventado por um caricaturista séculos mais tarde. A representação desproporcionada ou a deformação acentuada de um rosto que alterem a fisionomia humana, mas que mantenha os traços essenciais (A. DUARTE, 2014) para que seja inteligível pelo observador, são atributos intrínsecos à concepção de uma caricatura e estão bem patentes na obra de António que ora analisamos.
Sátira, ridículo, surgem como elementos dominantes deste género iconográfico com raízes na Antiguidade tardia e Idade Média. De resto, o escárnio e o grotesco pertencem ao campo das ideias (J. LEAL, 2013) que cedo povoam os textos literários de índole religiosa ou laica e até as imagens iluminadas, as esculturas de madeira em cadeirais ou de pedra nas gárgulas da arquitectura medieval e renascentista. A caricatura não parece, portanto, assumir preponderância como género autónomo, integrando várias expressões artísticas. Durante o Renascimento, Leonardo ou Metsys ensaiam tal autonomia, reconhecendo na caricatura a capacidade de retratar não a figura humana como ela é, mas o interior e a mente do retratado, cujas feições exacerbadas e gestos denunciados acusam essa dimensão oculta.
O advento do Barroco e do Classicismo académico mantêm a caricatura na esfera satírica e do burlesco sem grande autonomia. Os desenhos de perfil ou os gravados impressos que reflectem a aplicação prática da fisiognomonia como ciência e espelho da alma, teorizadas por Della Porta ou Le Brun (J.J. COURTINE e C. HAROCHE, 1995), contribuem paulatinamente para que já no século XVIII, através do legado de Ghezzi, Hogarth, Rowlandson e mais tarde Daumier na centúria seguinte, os artistas cultivem a caricatura como género independente. Num ambiente onde os pesados códigos de civilidade e conduta setecentistas ainda se faziam sentir, o pendor crítico e mordaz sublinha o exagero até ao ridículo através do virtuosismo do artista que se permite explorar nessa sociedade, sempre à procura de divertimento, as fraquezas e as falhas da conduta humana. No Portugal Barroco, o suporte privilegiado dessa paródia social foi o azulejo através da pintura de singeries visíveis, não só no Palácio Fronteira como em museus públicos e privados (Museu Nacional do Azulejo e Museu Berardo Estremoz) (S. V. FLOR, no prelo).
Nascida da conquista da liberdade de imprensa (P. FERNANDES, 2016), a generalização do consumo, no final do século XIX e durante todo o seguinte, de folhetos, jornais e revistas, a circulação de caricaturas parece vulgarizar o género, tirando óbvio partido da larga capacidade de difusão global que então a imprensa atingiu na Revolução Industrial. Não faltará o surgimento de símbolos que encarnam uma nação por inteiro, casos de John Bull e Zé Povinho (R. SILVA, 2006) sínteses da qualidade e sofisticação da caricatura humorística enquanto elemento de intervenção.
Será, porém, na arte do retrato (MARQUES, 2020) que o termo se ajustará mais, sendo considerado hoje uma sub-categoria retratística de enorme valia socio-cultural. Com a vulgarização da fotografia (S. MARTINS, 2019), do cinema e da banda desenhada, a caricatura política ou das elites sociais (que incluem o showbiz ou o desporto) ganhou espaço numa cultura de massas que aprecia o humor de fino recorte sarcástico e que não perde ontem a oportunidade de se divertir através do olhar crítico de outrem (B. TORRAS, 2016), tal como hoje perante um meme ou um cartoon. É nesse contexto jocoso, inteligente e por vezes demolidor que se situa o cartoon de António do PREC português 74-75.
“Retratos de Abril” consistiu num projecto de investigação em torno de uma das mais emblemáticas e inovadoras obras do cartoonista António Antunes (o conhecido António), a representação dos famosos Painéis de S. Vicente de autoria do pintor Nuno Gonçalves, hoje no MNAA, como se de uma representação da sociedade saída da Revolução de 1974 se tratasse. Tomando por base os Painéis, António quis deliberadamente tirar partido do fácil reconhecimento pelo público da iconografia neles contida, muito pela polémica que sempre despertaram na sociedade portuguesa desde 1910, data da publicação do primeiro trabalho aprofundado sobre o tema por José de Figueiredo.
Para caricaturar todo o Processo Revolucionário em Curso (PREC), iniciado no mítico dia de 25 de Abril de 1974, António revisitou e reinterpretou um dos símbolos maiores da história da pintura portuguesa que sempre se confundiu com a representação da sociedade quatrocentista profundamente envolvida na expansão além-mar que bem caracteriza a história de Portugal desse tempo. Do pintor Nuno Gonçalves, António pediu emprestado o modo de dispor as figuras, trajes e poses, substituindo os rostos das sessenta personagens pelos das mais relevantes dos anos de 1974-1975, período fulcral da nossa história contemporânea e fase de grande convulsão sociopolítica e ideológica.
Por conseguinte, António soube tirar partido da força imagética que os Painéis possuem e do lugar de referência que ocupam no imaginário coletivo. As faces das várias figuras que alegoricamente representam os vários estratos sociais do séc. XV, desde a Coroa à arraia miúda, num conjunto de seis tábuas pintadas por Gonçalves assumiram com verosimilhança outras feições mais actuais que o público rapidamente identificou. Como exemplo, refira-se a dupla representação de S. Vicente que se destaca do conjunto pictórico como elemento mais importante e que deu lugar à caricatura do Presidente da República General Ramalho Eanes, facilmente reconhecível pelo rosto anguloso e magro, pelos óculos escurecidos, o nariz alongado e um corte de cabelo onde não faltam as características patilhas. Seguem-se as restantes 58 personagens que António com esmerado cuidado caricaturou e que são divertidamente identificáveis.
O projecto é de enorme importância e traz novidade ao sistema científico e tecnológico nacional por várias razões. Em primeiro lugar, sublinhe-se que a obra de caricatura de António nunca mereceu um estudo aprofundado de conjunto que caracterizasse do ponto de vista plástico e iconográfico todo o processo criativo e imagético deste artista de excepcionais qualidades.
Depois, no campo da História da Arte, os diálogos imagéticos que se podem estabelecer entre a obra quatrocentista de Nuno Gonçalves e a novecentista de António são múltiplos e trazem à discussão problemáticas relevantes como o da intemporalidade das imagens, a iconofilia versus a iconoclastia e o uso artístico das imagens em contexto religioso ou laico. Os perfis científicos selecionados para esta equipa de investigação reúnem justamente várias valências e saberes que podem ajudar a discutir e a explicar esta multiplicidade de enfoques de análise, desde a história da arte da pintura do fim da Idade Média até à banalização da fotografia e do cinema na segunda metade do século XX. O estudo evolutivo do caso da caricatura como género pictórico indistinto durante vários séculos constituiu o fio condutor da investigação levada a cabo pela equipa. A caricatura assumiu particular relevância como estratégia de denúncia e de crítica social a partir do final do Antigo Regime e com fulgor no Realismo oitocentista finissecular.
Com o desenvolvimento de um estudo integrado de história da arte, história social e política, sem esquecer a história da caricatura e do retrato, o projecto tentou preservar uma obra pouco conhecida nos dias de hoje, mas que tanta relevância simbólica tem para a memória colectiva nacional e que urge preservar e deixar como herança às gerações vindouras. A construção deste website no âmbito de um seed project insere-se nesta tentativa de sublinhar a importância tanto da obra de Nuno Gonçalves como um marco indelével da história do retrato no ocidente europeu, quanto do carácter surpreendente das caricaturas de intervenção de António.
À época, quando a obra de António foi publicada no jornal, todas as figuras eram de fácil reconhecimento. Quaisquer delas apareciam amiúde nos jornais, revistas ou televisão e o público encontrava-se, portanto, familiarizado com os rostos caricaturados. No entanto, cinquenta anos depois, mercê do esquecimento e do devir da História, muitos deles são hoje de difícil identificação. Por isso, aproveitámos o ensejo das comemorações nacionais do 25 de abril para ajudar a preservar na memória colectiva dos portugueses e das gerações nascidas no pós-1974 de um modo pedagógico, humorístico e simultaneamente científico os rostos de Abril que são, no final, os de algumas das personagens mais marcantes da história de Portugal recente. Finalmente, a equipa tencionou também reflectir a relatividade da proeminência histórica num dado momento, mas que não passa ao futuro, agora analisável como passado.
DUARTE, Adelaide (2016), Da coleção ao museu. O colecionismo privado de arte moderna e contemporânea em Portugal, Lisboa, Caleidoscópio / Direção Geral do Património Cultural.
IDEM, (2014) O meu saber sobre arte nasce da experiência do olhar: uma conversa com José Lima. Traço descontínuo: coleção Norlinda e José Lima – uma selecção (Parte III), S. João da Madeira, CMSJM.
FERNANDES, Paulo Jorge (2022), A miséria pode ter piada? Representações da Fome e da Pobreza no humor gráfico contemporâneo. Pobreza e Fome, uma História Contemporânea: Temas, metodologias e estudos de casos. Ana Isabel QUEIROZ; Bárbara DIREITO, Helena da SILVA, Lígia Costa PINTO (Ed.), Lisboa, Imprensa de História Contemporânea, 251-264.
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FLOR, Pedro (2010a), A Arte do Retrato em Portugal nos séculos XV e XVI. Lisboa, Assírio e Alvim.
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FLOR, Susana Varela (no prelo), A Azulejaria da Quinta de Santo António da Cadriceira e a reabilitação da família Henriques de Miranda no Reinado de Afonso VI. Arquitecturas Brilhantes. Faculdade de Belas Artes, Lisboa.
IDEM (2016), ‘Las imagines adora, quien conoce la figura’: a pintura de retrato como instrumento visual da Diplomacia seiscentista. Pensar História da Arte – Estudos de Homenagem a José Augusto França. Lisboa, Esfera do Caos, 127-141.
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IDEM (2013), Da Difícil conjugação do verbo rir em História da Arte. Prontuário do Riso, Lisboa, Tinta da China, 93-103.
MARQUES, Bruno (2020), Cartas fora do Baralho: Os retratos imaginados de Costa Pinheiro. Lisboa: Caleidoscópio/São Roque.
IDEM (2020) Uma revolta na melancolia? Cinco grupos de mulheres retratadas por Nikias Skapinakis antes do 25 de Abril de 1974. Iberic@l: Revue d’études ibériques et ibéro-américaines, Numéro 17 – Printemps, 87-101.
MARTINS, Susana S. (2022), Photobooks with a view: Propaganda, Tourism, and Dissent During the Portuguese Dictatorship. PhotoResearcher. Journal of the ESHPh. European Society for the History of Photography, 38, 42-65.